Sol. Glorioso sol. Cheio, gordo, alaranjado, a manhã clara como a noite, a luz da manhã inundando toda terra e trazendo tristeza, tristeza, tristeza. Trazendo junto o chamado da manhã no cerrado goiano, a voz macia e selvagem do vento uivando através dos pelos do seu braço, o lamento vazio das luzes das estrelas, o ranger dos dentes do luar sobre a água.
Tudo isso chamando a Necessidade. Oh, o grito agudo da sinfonia das milhares de vozes ocultas, o choro da Necessidade, a entidade, o observador silencioso, a coisa fria e quieta, o dançarino das estrelas. O eu que não era eu, a coisa que zombava e ria e vinha com sua fome. Com a Necessidade. E a Necessidade agora era muito forte, muito cuidadosa gelada arrastada rachada ereta e pronta, muito forte, bem pronta agora — e ainda ela esperava e observava, e me fazia esperar e observar.
Eu não sei como ela surgiu em mim. Sabia que havia sido no fim a juventude e no começo da vida adulta. Comecei a dirigi desde muito cedo. Antes de todos os meus amigos da mesma idade. Treze anos a primeira caminhonete numa estrada de chão. Logo depois um caminhão leve. Depois um caminhão pesado. Um trator de esteira e até uma carregadeira, e enfim, uma carreta. Só depois desses peguei um carro pequeno. Antes de ter carteira, já podia dirigir, levar irmãs e mãe para os lugares. A virtude e a maldição de ser filho de um caminhoneiro. Você passa a vida contando histórias para seus amigos, sob a inveja daqueles cujos pais trabalham em escritório.
Como um cavalo selvagem que é aprisionado de um dia pro outro, sob o trânsito engarrafado, a Fúria vai surgindo e se acumulando lá dentro. Você não percebe. Silenciosa e lenta, a Fúria. Você se transforma. E ai num relance você se olha no espelho retrovisor e não se reconhece mais. Dr. Jackyll and Mr. Hide. O mostro surge e toma conta. Agora você é o Pateta naquele desenho antigo. Só falta o carimbo.
Ou o GTA da vida real. Velhinhas, 10 pts. Motoboy, 30 pts. Taxista, 50 pts. Um reality show sangrento, e como todos outros, nada engraçado. Bônus e Combos, na selva que é o trânsito das grandes cidades, é matar ou morrer. Hienas, guepardos e rinocerontes, todos demarcando o seu território. Todos lutando por alimento ($$$). Nessa luta sangrenta, perdi a conta das vezes que segui enfurecido playboy bombado (mas covarde) que me fechou. Quantas vezes xinguei o taxista babaca que pretendia entrar na minha frente. Quantas vezes ofendi a mãe da madame folgada que parou na fila dupla. E, quantas vezes o velho armado falou para eu ficar mais calmo, senão amanhã não veria a luz do sol novamente. Tudo tem um limite, eu penso depois.
Apesar dos fatores genético e/ou psicológicos, o ambiente, como sempre, é fundamental para explicar esse comportamento psicótico. Vivo numa cidade (Goiânia) que tem uma das maiores taxas de automóveis e motos por habitante. Aonde madames mimadas andam de SUV para ir ao supermercado da quadra ao lado comprar pão. Aonde baixinhos com complexo de inferioridade (por não terem crescido ou por terem “aquilo” pequeno?) precisam andar de caminhonete cabine dupla e 6 mts de comprimento para ir ao banco. Mas isso não é problema de uma cidade. Nesse caso particular é só uma cidade pequena que agora cresce como se tivesse um câncer se espalhando. O trânsito é ruim em todas as cidades do mundo.
Eu quero ver o meus filhos crescerem. Percebi que grande parte do meu stress não vem do trabalho, ou das dificuldades da paternidade, ou das eternas contas a pagar. Vem do trânsito. Por isso, a partir desse ano, decidi não dirigir (exceto se for estritamente necessário). Vou de ônibus (e é uma pena que os políticos subestimem tanto o potencial (eleitoral) do transporte público), irei de bicicleta (aonde a interação homem-máquina é verdadeira e real), ou se for preciso, vou à pé.
Afinal, preciso aprender a controlar o passageiro sombrio que habita em mim, pois um dia, ele toma conta, e a manhã pode ser A manhã.







