Fexter

Sol. Glorioso sol. Cheio, gordo, alaranjado, a manhã clara como a noite, a luz da manhã inundando toda terra e trazendo tristeza, tristeza, tristeza. Trazendo junto o chamado da manhã no cerrado goiano, a voz macia e selvagem do vento uivando através dos pelos do seu braço, o lamento vazio das luzes das estrelas, o ranger dos dentes do luar sobre a água.

Tudo isso chamando a Necessidade. Oh, o grito agudo da sinfonia das milhares de vozes ocultas, o choro da Necessidade, a entidade, o observador silencioso, a coisa fria e quieta, o dançarino das estrelas. O eu que não era eu, a coisa que zombava e ria e vinha com sua fome. Com a Necessidade. E a Necessidade agora era muito forte, muito cuidadosa gelada arrastada rachada ereta e pronta, muito forte, bem pronta agora — e ainda ela esperava e observava, e me fazia esperar e observar.

Eu não sei como ela surgiu em mim. Sabia que havia sido no fim a juventude e no começo da vida adulta. Comecei a dirigi desde muito cedo. Antes de todos os meus amigos da mesma idade. Treze anos a primeira caminhonete numa estrada de chão. Logo depois um caminhão leve. Depois um caminhão pesado. Um trator de esteira e até uma carregadeira, e enfim, uma carreta. Só depois desses peguei um carro pequeno. Antes de ter carteira, já podia dirigir, levar irmãs e mãe para os lugares. A virtude e a maldição de ser filho de um caminhoneiro. Você passa a vida contando histórias para seus amigos, sob a inveja daqueles cujos pais trabalham em escritório.

Como um cavalo selvagem que é aprisionado de um dia pro outro, sob o trânsito engarrafado, a Fúria vai surgindo e se acumulando lá dentro. Você não percebe. Silenciosa e lenta, a Fúria. Você se transforma. E ai num relance você se olha no espelho retrovisor e não se reconhece mais. Dr. Jackyll and Mr. Hide. O mostro surge e toma conta. Agora você é o Pateta naquele desenho antigo. Só falta o carimbo.

Ou o GTA da vida real. Velhinhas, 10 pts. Motoboy, 30 pts. Taxista, 50 pts. Um reality show sangrento, e como todos outros, nada engraçado. Bônus e Combos, na selva que é o trânsito das grandes cidades, é matar ou morrer. Hienas, guepardos e rinocerontes, todos demarcando o seu território. Todos lutando por alimento ($$$). Nessa luta sangrenta, perdi a conta das vezes que segui enfurecido playboy bombado (mas covarde) que me fechou. Quantas vezes xinguei o taxista babaca que pretendia entrar na minha frente. Quantas vezes ofendi a mãe da madame folgada que parou na fila dupla. E, quantas vezes o velho armado falou para eu ficar mais calmo, senão amanhã não veria a luz do sol novamente. Tudo tem um limite, eu penso depois.

Você não está preso no trânsito. Você é o trânsito.

Apesar dos fatores genético e/ou psicológicos, o ambiente, como sempre, é fundamental para explicar esse comportamento psicótico. Vivo numa cidade (Goiânia) que tem uma das maiores taxas de automóveis e motos por habitante. Aonde madames mimadas andam de SUV para ir ao supermercado da quadra ao lado comprar pão. Aonde baixinhos com complexo de inferioridade (por não terem crescido ou por terem “aquilo” pequeno?) precisam andar de caminhonete cabine dupla e 6 mts de comprimento para ir ao banco. Mas isso não é problema de uma cidade. Nesse caso particular é só uma cidade pequena que agora cresce como se tivesse um câncer se espalhando. O trânsito é ruim em todas as cidades do mundo.

Eu quero ver o meus filhos crescerem. Percebi que grande parte do meu stress não vem do trabalho, ou das dificuldades da paternidade, ou das eternas contas a pagar. Vem do trânsito. Por isso, a partir desse ano, decidi não dirigir (exceto se for estritamente necessário). Vou de ônibus (e é uma pena que os políticos subestimem tanto o potencial (eleitoral) do transporte público), irei de bicicleta (aonde a interação homem-máquina é verdadeira e real), ou se for preciso, vou à pé.

Afinal, preciso aprender a controlar o passageiro sombrio que habita em mim, pois um dia, ele toma conta, e a manhã pode ser A manhã.

Os homens que não amavam as mulheres

#Leião

Uma procuradora, bem sucedida, com dois filhos é brutalmente assassinada no seu condomínio de luxo na região metropolitana de Belo Horizonte. Já havia denunciado o ex-marido, um mauricinho perturbado, provavelmente mimado, bajulado, como todo homem de classe média. E mesmo como todo o conhecimento da lei e seguindo todos os procedimentos cabíveis na moderníssima e, excessivamente endeusada, Lei Maria da Penha, não consegue proteção. Se uma procuradora federal não consegue proteção contra a violência e ameaça, o que resta às mulheres pobres do Brasil?

A companheira suspeita que a filha, de 11 anos, está sendo abusada pelo padastro. Monta um armadilha antes de sair para o serviço, e deixa o celular dentro de uma caixa de papelão filmando tudo. Prova material de um crime. Trabalho de polícia. Com, medo pega a filha e foge para uma pequena cidade na região de Goiânia, não antes de fazer e distribuir várias cópias dos atos do padastro. O brilhante delegado, para toda a imprensa, afirma que não vai informar a localização “exata” delas, exceto que elas estão em Guapó, uma cidadezinha de 10mil habitantes na Grande Goiânia. Genial.

Uma mãe vê a filha de 12 anos sendo aliciada pelos barões do trafico num bairro pobre do Rio de Janeiro. Será mula, será escrava sexual de traficante em breve. Para tentar impedir, desesperada, bate na filha, que a denúncia ao conselho tutelar e à polícia. Com a nova Lei das Palmadas, ela vai ser indiciada, responder em juízo, provavelmente faltará ao serviço várias vezes e assim perderá o emprego. Sozinha, pois o bravo companheiro a abandonou na primeira oportunidade, não sabe o que vai ser dos seus outros 3 filhos pequenos. Deputados e deputadas em Brasília espumam ao proclamar a modernidade legislativa brasileira, conseguida assim, por decreto.

Um jovem enlouquecido de ciúmes e insegurança, invade um prédio, faz refém a ex-namorada e a amiga, mas homem que é, libera os outros dois rapazes. Seu problema é com as mulheres, não com os rapazes. Bravo. Depois de intermináveis horas de cativeiro, liberta a amiga. Os geniais policiais, todos homens, todos especialistas, todos corajosos (com uma arma na cintura), fazem com que a amiga volte ao paiol de pólvora com um fosforo aceso. Mais algumas horas depois, após ouvir “um barulho de tiro” (que pode ser o tapa na mesa de um Governador encastelado pelo desgaste político crescente com a situação que sua própria incompetência criou) a “tropa de elite” invade de maneira atabalhoada o apartamento. A ex-namorada morre, a amiga toma um tiro no rosto. Mas o jovem, sai ileso. E agora, três anos depois aguarda o julgamento. Terá que ser protegido na prisão. Cela especial, única.

Entre a ficção e a realidade, no Brasil, o país aonde não há machismo nem preconceito, não é um lugar perigoso para se viver.

Bem, exceto se você for mulher.

 

O começo do fim dos livros de papel

Que os livros de papel estão com os dias contados isso é dado. Sempre haverá um nostálgico aqui e ali que ainda vai ter pilhas deles, “saboreando” sua textura, a coloração da tinta nas pontas dos dedos, o seu cheiro de mofo e as alergias que o acumulo de ácaro e poeira trazem.

Mas assim que todos tiverem acesso a um tablet e um scanner de página dupla, será natural, como é pra mim, cortar seu velho livro, scannear e trocar aquele peso morto por um arquivo na nuvem.

Falando nisso, o próprio .pdf (como se encontra) está com os dias contados. É proprietário e rígido demais. Minhas apostas são, do lado proprietário, sempre ela com seu modelo verticalizado e eficiente, Apple com iBook Author exportando para um formato fechado e do lado aberto, com o Android e derivados (o que inclui os Kindle, Nook e similares) o HTML5 combinado com o ePub3, mas não sei se essa solução vai ter tanto suporte das editoras e desenvolvedores.

De qualquer forma, fica a dica para o MEC, ao invés de comprar milhões de computadores e livros pela FNDE e o PNLD (e por tabela cofinanciar essa mídia decadente e golpista), é melhor apostar logo em tablets e nos livros digitais que já começaram a fazer um grande estrago nessa multibilionária industria.

Para os saudosistas, sempre haverá um uso pra um velho livro de papel, como o da foto acima, ou em último caso, de peso para porta.

Sem lágrimas, por favor. Pra mim, já vão tarde.

O cerco ao Irã

Os ventos do oriente tem odor de pólvora. Está em todos os jornais: “O Irã ameaça fechar o estreito de Ormuz“. Ahmadinejad (e os Aiatolás, não se esqueçam) querem destruir a (cambaleante) economia global atrapalhando o fluxo do petróleo em um dos seus pontos nevrálgicos. Certo?

De certa maneira, me importa menos o que ocorre no Oriente Médio, e mais o como o Brasil se posiciona do ponto de vista estratégico. Antigamente, achava que o OM iria se autodestruir por questões religiosas. Hoje, tenho certeza que um dia eles vão se destruir, mas só porque lá é muito quente e tem pouca água. E tem muito petróleo, mas isso é detalhe.

Bem, isso, é o que a nossa (decrépita) mídia tenta passar. O que me incomoda no momento é como nossa mídia é incapaz de informar. Até onde sei, enquanto acreditamos que os iranianos são os vilões e querem uma bomba nuclear pra fazer um buraco aonde fica Israel, os chineses (esses sim, tem uma agenda medida em séculos e não décadas, como os americanos, ou carnavais, como os brasileiros) nadam de braçada com uma diplomacia inovadora e agressiva. Até aonde vão? Façam suas apostas.

Não se vê uma única linha dizendo que o que as potências ocidentais querem é o petróleo. É sabido desde o principio que os EUA não aceitariam um desbalanceamento de forças na região. Logo agora, enquanto ainda somos tão dependentes de combustíveis fosseis quanto um viciado é por cocaína. Não enquanto existe a possibilidade das reservas de petróleo terem atingido o seu pico.

O programa nuclear iraniano não seria a desculpa ideal pra resolver de vez o problema? Depois do Iraque e Afeganistão (e Palestina), as potenciais ocidentais vão fazer com o Irã o que todo Império faz quando um inimigo ousa desafiá-los: subjugar, conquistar e dominar.

Mas, obviamente, até os grãos de areia fumegantes do deserto de Dasht-e-Lut sabem que o Irã não é o Iraque. Não é só isolar, esperar alguns anos e invadir. Então, no manual “Guerra para Iniciantes”, o segundo capítulo é: “Como cercar o seu inimigo e enfraquecer suas defesas.

Basta lembrar dos romanos, ou se não quisermos ir tão longe na história, lembrar que a guerra no Iraque só foi (tão) fácil por que após anos de bloqueio os tanques e aviões do Saddam estavam sucateados. Hoje a única coisa que mudou é o tipo de cerco é econômico-financeiro.

A única diferença é que o Irã não vai esperar isso acontecer passivamente. Vão provocar enquanto podem causar algum estrago (ver infográfico). Então, logicamente, haverá guerra. As provocações em Ormuz, são só o começo. E até aonde vi (e o Lula e o Celsão também) não haverá concessão (minimamente soberana) que será aceita pelas grandes potências. Pelo caminhar da carruagem, inevitavelmente haverá guerra.

Não é uma questão de ser a favor ou contra iranianos, americanos ou judeus. Não é sobre acreditar, como tolos e misses acéfalas, na Paz Mundial. O que me tira o sono, é que o Brasil, esse gigante adormecido, a potência que ainda não foi, não estar discutindo estratégias.

Quando digo estratégia, isso significa uma visão que pense na nossa capacidade de construir estradas, de fazer aviões e navios, de conseguir produzir, armazenar e distribuir etanol em grande escala, de tirar mais petróleo do pré-sal mais rapidamente, enfim, de inovar em todos setores. Você deve fazer isso em situação normal, mas você terá que fazer isso num momento de turbulência geopolítica como o que se aproxima.

Não falo de ilusões, nem de subitamente sermos capazes de decidir uma guerra do outro lado do mundo. Só gostaria de ser mais otimista com a possibilidade de estarmos preparados para nos posicionarmos melhor após um conflito dessa magnitude. Afinal, não no pós-guerra que nascem as novas potências?

SOPA – A Lei da Censura da Internet

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É preciso que nos preparemos para a grande batalha que acontecerá nos próximos anos: a censura a internet. A tentativa de bloqueio no coração dela (o DNS).

De certa forma passamos a acreditar que isso não seria possível. Mas os lobistas da RIAA e da MPAA não se cansam, e ao invés de reformar seus modelos de negócios bilionários, preferem passar leis de censura e monitoramento.

Mas duvido que essa lei seja só promovida por essas entidades, muitos governos e governantes gostariam de ter de volta esse poder.

De volta, pois pela primeira vez, desde a invenção da democracia, ela está prestes a se tornar realmente plena. A dar voz e a equiparar a voz do indivíduo com a da grande corporação. Da grande celebridade com o anônimo. Dos governantes com os seus cidadãos e eleitores.

Eles não vão desistir assim fácil. Aqui no Brasil ainda estamos lutando contra o “AI-5 Digital“, e não podemos descuidar nem um segundo.

E lá fora, a batalha contra a “SOPA” está crescendo. Nessa semana saiu a lista das empresas que a apoiam e começaram a surgir algumas reações.

Precisamos nos informar e mobilizar contra essa tentativa de controle da internet, por que, a partir de agora, ela será permanente.

É o software, estúpido!

Meses atrás o Marc Andressen entre outras coisas, co-fundador da Netscape e hoje com o Brad Horowitz, investidor em inúmeras startups escreveu no WSJ (ver abaixo) sobre como o software está engolindo o mundo.

Ele não é o primeiro, e nem vai ser o último a dissertar sobre isso. Confesso que nós, técnicos, temos um sério problema de comunicação com as outras pessoas “normais”. Às vezes, ignoramos que o que é óbvio para nós às vezes não o é para os outros.

Vejam as últimas decisões do Governo. Uma série de medidas a fim de “proteger a industria nacional”. Por outro lado, tenta inutilmente trazer para o Brasil certas “industrias”. O exemplo mais patético são os consoles de videogames. Passamos anos clamando por isso, e só agora, quando a 7ª geração de consoles (Wii, PS3 e XBox360) chega, melancolicamente, ao fim é que pessoas no governo começam a discutir políticas específicas para esse setor.

Não dá mais! Já era! Acabou. A própria industria de games está sendo solapada pela revolução mobile. Há dúvidas se teremos uma 8ª geração de consoles. Com o aumento da capacidade de processamento e os avanços na nanotecnologia um smartphone ou tablet é – ou bem em breve será – capaz de ser a plataforma ideal para jogos eletrônicos.

A solução óbvia, natural, para o problema é estimular a produção dos jogos. O software, não o hardware. Mas não, todas as políticas seguem aquilo que considero a “maldição cepalina“. Burocratas por todo o governo e universidades, acreditam piamente que seremos capazes de promover uma “substituição de importações” plena, em todos os setores. E como isso recursos já escassos para setores que simplesmente não importam mais.

Vejamos as últimas decisões para o setor automobilístico. Não estou aqui, querendo que o deixem nossas montadoras, construídas à base de pesados subsídios, sob o ataque das agressivas montadoras asiáticas. Só gostaria que houvesse o mínimo de contrapartida delas, aceitando investir uma pequena parte em design e em carros e motos elétricas.

Um exemplo de uma boa política foi a construída a fim de atrair a produção de tablets, o chamado Processo Produtivo Básico (PPB). Mas só pode funcionar por que é um mercado recente. Mas mais importante que isso, é financiar a produção de conteúdo, software para tais plataformas. O software é a forma de revolucionar a indústria brasileira.

A Apple apesar das aparências, não revolucionou com o hardware dos seus produtos, revolucionou com inovação, com o design, com o software, com o conteúdo. O hardware só acompanhou um conceito mais profundo. A ideia física de tablet e smartphones já existia há anos. Veja aonde a Nokia, que produziu um dos smartphones com o hardware mais robusto da história (N95), está hoje. A obsolescência não perdoa ninguém.

O Android não está se consolidando como futura plataforma dominante por causa da qualidade do hardware que os fabricantes criam pra ele, e sim, pela consistência do ecossistema criou. Pela inovação constante que as só as plataformas abertas permitem. Pela agilidade e rápidas iterações para agregar funcionalidades.

É preciso convencer os governantes que fechar nossa economia ainda mais não vai ajudar em nada o nosso desenvolvimento. Um jovem designer ou empreendedor que precise de uma impressora 3D pra fazer a prototipação de um produto inovador a baixo custo, gastaria quanto, e principalmente, perderia quanto tempo pra fazer a importação? E os intermediários? E a burocracia? E a incerteza jurídica?

O Governo ainda acredita que a inovação acontece numa universidade ou instituto, quando na verdade ela está na cabeça dos jovens. Os mesmos jovens que abandonam uma Universidade ultrapassada, cheia de velhos, com regras draconianas, com professores que mais parecem ditadores. Foram jovens que largaram os “estudos” que criaram a Apple, o Google, a Microsoft e o Facebook numa garagem

As maiores companhias do mundo em breve serão as produtoras de software. Do mesmo tamanho só alguns dinossauros que ainda se alimentam da nossa estúpida dependência de combustíveis fósseis. Mas não podemos apostar nosso futuro e o dos nossos filhos numa industria que tem data de vencimento, ou na produção de bens primários sem a agregação de valor e tecnologia.

Esse deveria ser o foco do debate político hoje. É por isso que os jovens estudantes, técnicos e cientistas deveriam se mobilizar. Uma economia mais aberta, e não o contrário. E foco (não só verbas) na inovação, ciência e tecnologia.

Why Software Is Eating The World

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Memórias de um ex-dependente da nicotina

Inacreditável. Eu fumava Lucky Strike, Malboro. Só faltou o Camel, pra me sentir mais estúpido.

As memórias surgem como fotografias, aceleram, viram filmes, mas em câmera lenta. Depois chegam as sensações, o frio na pele, os odores da manhã, a luminosidade daquele dia nublado. Finalmente chego no fundo do baú das memórias, guardadas num canto escuro do meu cérebro, a decepção e vergonha consigo mesmo, tudo catalisado para criar suporte à tomada de atitude.

Bem, resumidamente, foi assim que parei de fumar:

Anápolis, 20 de Janeiro de 2000

Venta frio, um frio cortante, causando um zunido estranho. Prelúdio de chuva. Essa cidade, entre Goiânia e Brasília, mais parece um iceberg encalhado no meio do Planalto Central. Sempre chove, sempre faz frio. Manchester no calor seco do centro do Brasil? Sempre chove em Anápolis.

E eu de sunga. Ao lado, meu futuro professor de natação e amigo. Ele, debaixo de um amplo guarda-sol – que, oh, ironia!, tinha patrocínio de uma marca de cerveja de logo amarelo. Ele quer testar minha capacidade respiratória. Ex-jogador do time de basquete da escola, ex-ciclista nas hora vagas. Sempre, sempre praticando algum esporte. Não naquela época, não depois dos excessos da juventude.

Mergulho numa piscina semi-olímpica de temperatura quase-polar. Não chego nem ao meio dela. Depois de tirar a cabeça da água, me senti estúpido, me senti fraco, me senti mais velho do que minha carteira de identidade afirmava, me senti dominado por uma maldita droga sabidamente cancerígena.

Sejamos sinceros, quem além do próprio Mefisto teria colocado no mundo, folhas de tabaco trituradas e misturadas com outras substâncias (para potencializar o vício), e depois enroladas num papel. Acende-se de um lado, suga-se a fumaça do outro, para depois exala-lá achando tudo isso glamouroso, cult, tão stylish como do James Dean em “Rebel Without a Cause“, como Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany’s.

Sou velho, ok. Bom, mas se for de outra época, não se preocupe, existem outras referências sempre a mão. A indústria é extremamente profissional quanto a isso.

Cult, Rebelde - se você for homem

Só mesmo a infindável estupidez humana pra criar o hábito de jorrar fumaça numa obra prima da engenharia evolutiva que chamamos de pulmão. Ela entra, mas não sai antes de deixar pelo caminho todas as suas toxinas e sujeiras. Não antes de jogar na corrente sanguínea doses de nicotina que 8 segundos depois já estão no cérebro mostrando seu poder.

A nicotina é tão viciante quanto cocaína e a heroína. Ela é a chave idêntica pra um outro neurotransmissor (acetilcolina) envolvido em muitas outras funções do corpo. Pra mim, servia pra ativar a memória e reduzir a ansiedade, principalmente. Era por isso que fumava. Além de ser o complemento perfeito pra uma cerveja ou um café. Além de óbvio achar aquilo “bonito”.

Stylish - se você for mulher

Naquele dia frio, depois de 3 ou 4 tentativas anteriores (ninguém consegue se livrar da nicotina de 1ª), sendo a maior com 1 ano e 8 meses, decidi que não fumaria mais; tomaria água; mascaria um chiclete; usaria adesivos; daria um chute na quina da porta. Mas não fumaria mais.

Aliás, percebam que a nicotina pode ser absorvida por várias formas: narinas, língua, pele, enfim qualquer forma. Então é fato que fumantes passivos fumam quase o mesmo que os fumantes ativos.

Muitos amigos meus ainda fumam. E eu custo a acreditar nisso. Em pleno séc. 21, gente que fuma. Gente que defende o “direito” de fumar. Sabidamente alimentam uma das doenças mais destruidoras que já surgiu na nossa breve existência.

O câncer destrói não só quem o tem, ele é devastador principalmente pra quem está em volta. Pais, filhos, companheiros, etc. E a conta no final é de todos.

Nadar foi meu refúgio. O mesmo refúgio que achava ter encontrado no cigarro pra reduzir a ansiedade. Perdi momentos únicos da minha vida permitindo que meu cérebro fosse enganado por uma falsária que levava a chave, mas deixava um rastro de sujeira permanente no meu corpo.

A ansiedade e o estresse fazem parte da vida. Só os covardes fogem dela. Só os estúpidos ainda inalam uma fumaça assassina pra dentro máquina quase-perfeita que é o corpo humano. Antes não conhecíamos mecanismo, o funcionamento. E com isso não havia a tecnologia, as ferramentas.

Estúpido, eu fui. Covarde, não depois daquele dia. É uma pena que ainda exista uma multidão ai fora. Usando  falácias, pra tentar argumentar, pra justificar o injustificável. Hoje só falta a atitude, o querer.

Só falta o mergulho numa piscina gelada num dia frio. O que não é muito.

Quando a primavera chegar

Uprising

Por toda mídia eles noticiam como se só houvessem revoltas e uprisings em países contrários ao “ocidente”. É a civilidade do ocidente chegando ao oriente médio, propagam em decadentes telejornais, revistas e jornais. Atrasados e obsoletos, são vítimas da inescapável revolução tecnológica. Mas não perderam a certeza. Décadence sans élégance.

Os velhos sabem exatamente o que se passa na cabeça dos jovens que clamam por um direito básico: liberdade. Sempre sabem. O velho jornalista, pseudo-intelectual, exibe um sorriso mórbido no telejornal noturno. Parece um vampiro a me assombrar no fim da noite. Quem colocou nesse canal? Não tenho medo de praticamente nada, nem da morte, mas temo profundamente aquele sorriso dissimulado. Ele exibe satisfação – ao seu modo, claro – ao noticiar a primavera árabe, sem contudo, se envergonhar com a diferença de tratamento das mobilizações contra banqueiros e financista nos EUA, ou a revolta crescente na Eurozona contra os pacotes que seguem a velha regra de mais austeridade pra pagar financistas gananciosos. É pela “estabilidade do sistema”, repetem por toda parte como se fizesse sentido.

Economistas do mundo todo procuram explicação. Não percebem o que eles consideram “ciência” ter se tornado um poço de areia movediça. Quanto mais se debate pra tentar fugir das teorias que afundam, mas se enrolam. Grandes gestores de hegde funds ligam apavorados para suas esposas-troféu pra pedir que saquem dinheiro e guardem no colchão. Tanto quanto puderem sacar. O sistema monetário já não é tão “estável” quanto a teoria “demonstrava”. “As linhas de crédito “travaram”, não sabemos aonde vamos parar”. O colapso talvez.

Esquerdistas nostálgicos – como viúvas de um canalha, mas bom de cama – permanecem parados no tempo, acreditam nos sinais da revolução. No “fim do capitalismo”, pela milésima vez. “A luta continua companheiro, a hora é agora”. Não percebem que o capitalismo se destrói e reconstrói diariamente. Estão cegos e ocupados demais. O twitter nos guiará rumo a um novo “sistema”. “No final do ano vou juntar todos os meus twits e fazer um tese, sonha o acadêmico decadente”.

Ditadores morrem ou são mortos em cada canto escuro do mundo. Em cada gruta fria, terroristas são mortos por bombas teleguiadas ou esquadrões delta, treinados como cães de briga. Uma forma especial de lobotomia. Pra quê um soldado robô?, se hoje com a química certa, com a tecnologia certa, podemos ter o cyborg perfeito. Geneticamente criado, psicologicamente treinado. “Um dia todo exército será assim, é só terminar essa fase de testes, promete”. “Não Sr. Presidente, não teremos mais Bradley Manning‘s a nos atormentar”. É só uma questão de tempo.

Políticos por todo o mundo são alçados ao poder, e antes mesmo de começar a fazer aquilo que almejavam, aquilo pelo qual foram eleitos, são sacados do trono por uma mão invisível. Se ainda no poder, são sustentados pelo lobby que antes prometiam combater. Só não se sabe por quanto tempo. Ou foram picados pelo veneno da mosca-azul, ou ficaram enebriados pela brancura dos mármores palacianos. Ou, em alguns casos, na ausência de uma estagiária voluptuosa, foram seduzidos pelo jovem ajudante d’ordens que habilmente abre e fecha as portas. “Nunca mais tocar numa maçaneta, sonhava o hoje o ex-presidente”.

Adultos, mas infantilizados depois de anos da combinação perfeita tv+internet, por todo o mundo repentinamente se indignam com os abusos dos políticos, refletem sobre o que se passa no seu país, e se articulam. E num súbito arroubo de fúria, proclamam:

- Amor, hoje vou fazer um post no <twitter/facebook/blog/etc.> sobre <política/meio-ambiente/economia/ geopolítica/etc.>. Cansei da velha alienação.

Tremei, a revolução está entre nós.

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Ainda sobre o Pará

Eu pretendia escrever sobre isso antes do resultado. Não deu. De qualquer forma pra mim não foi uma surpresa a derrota da divisão, mas o tamanho da diferença foi (66% a 25%). Eu tenho familiares que migraram para essa região e já ouvi muitas histórias a respeito dos problemas. Inúmeros.

Como economista via que a maioria se deve à ausência do Estado. Ou omissão. Acredito que um estado dessa dimensão é praticamente ingovernável da maneira atual. No fim era “levemente” a favor devido à experiência da divisão Goiás-Tocatins. Como goiano, é nítido, não o que representou para Goiás (acredito que para nós foi indiferente do ponto de vista econômico), mas como os tocantinenses ganharam. Isso é indiscutível. Além disso Tocantins optou por um modelo de desenvolvimento mais baseado na iniciativa privada. E isso é (pode ser) bom no longo prazo.

Ainda que falho em vários pontos, acredito ser  o melhor modelo de desenvolvimento para estados com um déficit muito grande no desenvolvimento econômico e social. Um estado forte e indutor que estimule a iniciativa privada. E um novo modelo administrativo, bem mais descentralizado. Às vezes quando se tem pouco é melhor recomeçar e partir do zero. Esses estados podem ser o exemplo de um novo modelo de gestão pública.

Além disso, há que se notar que a divisão Goiás-Tocantins foi realizada numa época de forte contingenciamento financeiro por parte da União e Estado. Assim o governo não investiu o necessário para elevar o desenvolvimento do novo estado. Hoje essa situação é um pouco diferente. Outro aspecto é que, hoje, quando visito a região norte de Goiás eu vejo como não criamos um modelo de investimento para reduzir o atraso dessa região que ficou com a gente. Fico imaginando como seria se não tivéssemos criado Tocantins.

Agora justificar a não divisão do Pará “por que criaria mais políticos” é miopia e ignorância. É visão de pseudo-democratas que não querem pagar o preço pela democracia.

De qualquer forma (ainda) acredito na democracia. Os paraenses tiveram seu momento de escolha e tomaram a sua decisão. Agora vão ter que elaborar um novo modelo de gestão, pois o atual está falido. É impossível administrar um estado dessa dimensão com essa visão centralizadora.

PS.: E eu gosto do Calypso. E pra quem não sabe o Tecnobrega está desenvolvendo um modelo que pode salvar a falida industria audiovisual tradicionalmente avessa à inevitável tendência de colaboração e inovação aberta (ver “O Pará reinventando o negócio da música” e  “Tacky and Proud: Exploring Tecnobrega’s Value Network“). Mas o preconceito só existe “nos outros”, não é mesmo?

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