Memórias de um ex-dependente da nicotina

Inacreditável. Eu fumava Lucky Strike, Malboro. Só faltou o Camel, pra me sentir mais estúpido.

As memórias surgem como fotografias, aceleram, viram filmes, mas em câmera lenta. Depois chegam as sensações, o frio na pele, os odores da manhã, a luminosidade daquele dia nublado. Finalmente chego no fundo do baú das memórias, guardadas num canto escuro do meu cérebro, a decepção e vergonha consigo mesmo, tudo catalisado para criar suporte à tomada de atitude.

Bem, resumidamente, foi assim que parei de fumar:

Anápolis, 20 de Janeiro de 2000

Venta frio, um frio cortante, causando um zunido estranho. Prelúdio de chuva. Essa cidade, entre Goiânia e Brasília, mais parece um iceberg encalhado no meio do Planalto Central. Sempre chove, sempre faz frio. Manchester no calor seco do centro do Brasil? Sempre chove em Anápolis.

E eu de sunga. Ao lado, meu futuro professor de natação e amigo. Ele, debaixo de um amplo guarda-sol – que, oh, ironia!, tinha patrocínio de uma marca de cerveja de logo amarelo. Ele quer testar minha capacidade respiratória. Ex-jogador do time de basquete da escola, ex-ciclista nas hora vagas. Sempre, sempre praticando algum esporte. Não naquela época, não depois dos excessos da juventude.

Mergulho numa piscina semi-olímpica de temperatura quase-polar. Não chego nem ao meio dela. Depois de tirar a cabeça da água, me senti estúpido, me senti fraco, me senti mais velho do que minha carteira de identidade afirmava, me senti dominado por uma maldita droga sabidamente cancerígena.

Sejamos sinceros, quem além do próprio Mefisto teria colocado no mundo, folhas de tabaco trituradas e misturadas com outras substâncias (para potencializar o vício), e depois enroladas num papel. Acende-se de um lado, suga-se a fumaça do outro, para depois exala-lá achando tudo isso glamouroso, cult, tão stylish como do James Dean em “Rebel Without a Cause“, como Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany’s.

Sou velho, ok. Bom, mas se for de outra época, não se preocupe, existem outras referências sempre a mão. A indústria é extremamente profissional quanto a isso.

Cult, Rebelde - se você for homem

Só mesmo a infindável estupidez humana pra criar o hábito de jorrar fumaça numa obra prima da engenharia evolutiva que chamamos de pulmão. Ela entra, mas não sai antes de deixar pelo caminho todas as suas toxinas e sujeiras. Não antes de jogar na corrente sanguínea doses de nicotina que 8 segundos depois já estão no cérebro mostrando seu poder.

A nicotina é tão viciante quanto cocaína e a heroína. Ela é a chave idêntica pra um outro neurotransmissor (acetilcolina) envolvido em muitas outras funções do corpo. Pra mim, servia pra ativar a memória e reduzir a ansiedade, principalmente. Era por isso que fumava. Além de ser o complemento perfeito pra uma cerveja ou um café. Além de óbvio achar aquilo “bonito”.

Stylish - se você for mulher

Naquele dia frio, depois de 3 ou 4 tentativas anteriores (ninguém consegue se livrar da nicotina de 1ª), sendo a maior com 1 ano e 8 meses, decidi que não fumaria mais; tomaria água; mascaria um chiclete; usaria adesivos; daria um chute na quina da porta. Mas não fumaria mais.

Aliás, percebam que a nicotina pode ser absorvida por várias formas: narinas, língua, pele, enfim qualquer forma. Então é fato que fumantes passivos fumam quase o mesmo que os fumantes ativos.

Muitos amigos meus ainda fumam. E eu custo a acreditar nisso. Em pleno séc. 21, gente que fuma. Gente que defende o “direito” de fumar. Sabidamente alimentam uma das doenças mais destruidoras que já surgiu na nossa breve existência.

O câncer destrói não só quem o tem, ele é devastador principalmente pra quem está em volta. Pais, filhos, companheiros, etc. E a conta no final é de todos.

Nadar foi meu refúgio. O mesmo refúgio que achava ter encontrado no cigarro pra reduzir a ansiedade. Perdi momentos únicos da minha vida permitindo que meu cérebro fosse enganado por uma falsária que levava a chave, mas deixava um rastro de sujeira permanente no meu corpo.

A ansiedade e o estresse fazem parte da vida. Só os covardes fogem dela. Só os estúpidos ainda inalam uma fumaça assassina pra dentro máquina quase-perfeita que é o corpo humano. Antes não conhecíamos mecanismo, o funcionamento. E com isso não havia a tecnologia, as ferramentas.

Estúpido, eu fui. Covarde, não depois daquele dia. É uma pena que ainda exista uma multidão ai fora. Usando  falácias, pra tentar argumentar, pra justificar o injustificável. Hoje só falta a atitude, o querer.

Só falta o mergulho numa piscina gelada num dia frio. O que não é muito.

Quando a primavera chegar

Uprising

Por toda mídia eles noticiam como se só houvessem revoltas e uprisings em países contrários ao “ocidente”. É a civilidade do ocidente chegando ao oriente médio, propagam em decadentes telejornais, revistas e jornais. Atrasados e obsoletos, são vítimas da inescapável revolução tecnológica. Mas não perderam a certeza. Décadence sans élégance.

Os velhos sabem exatamente o que se passa na cabeça dos jovens que clamam por um direito básico: liberdade. Sempre sabem. O velho jornalista, pseudo-intelectual, exibe um sorriso mórbido no telejornal noturno. Parece um vampiro a me assombrar no fim da noite. Quem colocou nesse canal? Não tenho medo de praticamente nada, nem da morte, mas temo profundamente aquele sorriso dissimulado. Ele exibe satisfação – ao seu modo, claro – ao noticiar a primavera árabe, sem contudo, se envergonhar com a diferença de tratamento das mobilizações contra banqueiros e financista nos EUA, ou a revolta crescente na Eurozona contra os pacotes que seguem a velha regra de mais austeridade pra pagar financistas gananciosos. É pela “estabilidade do sistema”, repetem por toda parte como se fizesse sentido.

Economistas do mundo todo procuram explicação. Não percebem o que eles consideram “ciência” ter se tornado um poço de areia movediça. Quanto mais se debate pra tentar fugir das teorias que afundam, mas se enrolam. Grandes gestores de hegde funds ligam apavorados para suas esposas-troféu pra pedir que saquem dinheiro e guardem no colchão. Tanto quanto puderem sacar. O sistema monetário já não é tão “estável” quanto a teoria “demonstrava”. “As linhas de crédito “travaram”, não sabemos aonde vamos parar”. O colapso talvez.

Esquerdistas nostálgicos – como viúvas de um canalha, mas bom de cama – permanecem parados no tempo, acreditam nos sinais da revolução. No “fim do capitalismo”, pela milésima vez. “A luta continua companheiro, a hora é agora”. Não percebem que o capitalismo se destrói e reconstrói diariamente. Estão cegos e ocupados demais. O twitter nos guiará rumo a um novo “sistema”. “No final do ano vou juntar todos os meus twits e fazer um tese, sonha o acadêmico decadente”.

Ditadores morrem ou são mortos em cada canto escuro do mundo. Em cada gruta fria, terroristas são mortos por bombas teleguiadas ou esquadrões delta, treinados como cães de briga. Uma forma especial de lobotomia. Pra quê um soldado robô?, se hoje com a química certa, com a tecnologia certa, podemos ter o cyborg perfeito. Geneticamente criado, psicologicamente treinado. “Um dia todo exército será assim, é só terminar essa fase de testes, promete”. “Não Sr. Presidente, não teremos mais Bradley Manning‘s a nos atormentar”. É só uma questão de tempo.

Políticos por todo o mundo são alçados ao poder, e antes mesmo de começar a fazer aquilo que almejavam, aquilo pelo qual foram eleitos, são sacados do trono por uma mão invisível. Se ainda no poder, são sustentados pelo lobby que antes prometiam combater. Só não se sabe por quanto tempo. Ou foram picados pelo veneno da mosca-azul, ou ficaram enebriados pela brancura dos mármores palacianos. Ou, em alguns casos, na ausência de uma estagiária voluptuosa, foram seduzidos pelo jovem ajudante d’ordens que habilmente abre e fecha as portas. “Nunca mais tocar numa maçaneta, sonhava o hoje o ex-presidente”.

Adultos, mas infantilizados depois de anos da combinação perfeita tv+internet, por todo o mundo repentinamente se indignam com os abusos dos políticos, refletem sobre o que se passa no seu país, e se articulam. E num súbito arroubo de fúria, proclamam:

- Amor, hoje vou fazer um post no <twitter/facebook/blog/etc.> sobre <política/meio-ambiente/economia/ geopolítica/etc.>. Cansei da velha alienação.

Tremei, a revolução está entre nós.

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O Predador

Vamos supor, hipoteticamente, que amanhã quando acordássemos não estivéssemos mais no topo da cadeia alimentar. Que um ser alienígena, ou uma mutação em um dos seres abaixo de nós, os colocasse repentinamente acima. Pra começo de conversa, e ignorando diversas outras consequências, aonde esse ser iria nos caçar?

Na porta de um fast-food? Acredito que não. Aquilo que esses estabelecimentos produzem está longe de ser chamado de alimento. Algo totalmente industrializado – e quem já viu uma industria de alimentos por dentro sabe do que estou falando – só para atender a ansiedade da vida moderna. Aquela coisa que servem lá “sobrevive” por dias, meses e nem bactérias e fungos são capazes de decompô-las. Acredito que o plástico se decompõe mais rápido.

Outra opção seria na porta de uma churrascaria. Somos carnívoros, e usamos essa desculpa esfarrapada para nos entupirmos de carne gordurosa e impregnada de sal a fim de saciar uma herança primitiva. Teoricamente, ingerimos muito mais proteínas que o necessário. Mas essa demanda por carne, além de devastar florestas virgens para abrir espaço para pasto (bem, pelo menos não alimentamos o nosso gado com restos de outras culturas o que como se sabe tem consequências trágicas), nos obriga a acelerar o crescimento das vacas, porcos e galinhas com hormônios. Afinal todo fim de semana tem que ter churrasco e cerveja, certo?

Então seria na porta de um bar? Acredito que se alimentar de humanos onde os órgãos cuja função seria filtrar e eliminar as toxinas do nosso organismo – como o fígado e os rins – passaram a funcionar precariamente devido a falta de limites, não seria uma escolha muito inteligente.

Ou na porta de uma doceria, panificadora ou pizzaria? Bom, basta observar por alguns minutos o formato do corpo dos espécimes que entram e saem mais frequentemente desses ambientes pra pensar duas vezes e descartar essa hipótese. Além do quê, nunca poderíamos ignorar o prazer da caçada. Caçar um gordinho desesperado rolando pela ladeira – sem contudo, largar a rosquinha recheada – não teria graça alguma.

Veganistas e similares poderiam ser a melhor opção. Mas é conhecido o radicalismo do ser humano quando se tem que fazer escolhas difíceis. Nunca optamos pela sabedoria do equilíbrio, sempre é tudo ou nada. Assim creio que vegetarianos e vegans não seriam uma boa fonte de nutrientes para eles. Também temos que considerar a escala, já que os que não comem carne são a minoria da minoria da população, e não seriam suficientes para alimentar toda uma nova espécie.

Se esses seres, inseridos no “nosso” ecossistema, fossem mesmo uma espécie mais evoluída que nós – o que, definitivamente, não seria difícil, muito pelo contrário – eles optariam por uma outra fonte de nutrientes que não nós. Sei lá, uma zebra, um gnu. E talvez nos caçariam por pura diversão. Afinal, se tem algo que aprenderíamos rapidamente seria fugir como gazelas no meio Serengeti quando o guepardo chegar pro almoço.

Mas isso tudo, só nos levar a refletir sobre nossos (patéticos) hábitos. Somos o que comemos. Então se tivéssemos o mínimo de discernimento e olhássemos para nossa dieta com os olhos de uma espécie mais evoluída, veríamos quanto lixo ingerimos diariamente. Aliás praticamente tudo que comemos e bebemos é nocivo. O que no nosso estágio evolutivo é incoerente, principalmente se compararmos com os avanços na tecnologia e genética, por exemplo.

Mas talvez essa seja a razão, a maneira como avançamos nessas áreas passou a ilusão de que sempre desenvolveremos uma solução, medicamento ou cirurgia pra compensar nossos péssimos hábitos. Enfim, que teríamos a vida eterna a um preço razoável.

Bem, pelo menos até que a dona evolução nós mostrar quem é que manda no pedaço.

Ainda sobre o Pará

Eu pretendia escrever sobre isso antes do resultado. Não deu. De qualquer forma pra mim não foi uma surpresa a derrota da divisão, mas o tamanho da diferença foi (66% a 25%). Eu tenho familiares que migraram para essa região e já ouvi muitas histórias a respeito dos problemas. Inúmeros.

Como economista via que a maioria se deve à ausência do Estado. Ou omissão. Acredito que um estado dessa dimensão é praticamente ingovernável da maneira atual. No fim era “levemente” a favor devido à experiência da divisão Goiás-Tocatins. Como goiano, é nítido, não o que representou para Goiás (acredito que para nós foi indiferente do ponto de vista econômico), mas como os tocantinenses ganharam. Isso é indiscutível. Além disso Tocantins optou por um modelo de desenvolvimento mais baseado na iniciativa privada. E isso é (pode ser) bom no longo prazo.

Ainda que falho em vários pontos, acredito ser  o melhor modelo de desenvolvimento para estados com um déficit muito grande no desenvolvimento econômico e social. Um estado forte e indutor que estimule a iniciativa privada. E um novo modelo administrativo, bem mais descentralizado. Às vezes quando se tem pouco é melhor recomeçar e partir do zero. Esses estados podem ser o exemplo de um novo modelo de gestão pública.

Além disso, há que se notar que a divisão Goiás-Tocantins foi realizada numa época de forte contingenciamento financeiro por parte da União e Estado. Assim o governo não investiu o necessário para elevar o desenvolvimento do novo estado. Hoje essa situação é um pouco diferente. Outro aspecto é que, hoje, quando visito a região norte de Goiás eu vejo como não criamos um modelo de investimento para reduzir o atraso dessa região que ficou com a gente. Fico imaginando como seria se não tivéssemos criado Tocantins.

Agora justificar a não divisão do Pará “por que criaria mais políticos” é miopia e ignorância. É visão de pseudo-democratas que não querem pagar o preço pela democracia.

De qualquer forma (ainda) acredito na democracia. Os paraenses tiveram seu momento de escolha e tomaram a sua decisão. Agora vão ter que elaborar um novo modelo de gestão, pois o atual está falido. É impossível administrar um estado dessa dimensão com essa visão centralizadora.

PS.: E eu gosto do Calypso. E pra quem não sabe o Tecnobrega está desenvolvendo um modelo que pode salvar a falida industria audiovisual tradicionalmente avessa à inevitável tendência de colaboração e inovação aberta (ver “O Pará reinventando o negócio da música” e  “Tacky and Proud: Exploring Tecnobrega’s Value Network“). Mas o preconceito só existe “nos outros”, não é mesmo?

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A Privataria Tucana

Ao contrário do que muitos pensam, eu estou interessado no livro não para descobrir algo de novo sobre os tucanos (afinal, depois da Satiagraha, já sabemos e temos as provas do quanto esse processo foi sujo), e sim ligar os pontos sobre a luta interna dos petistas e tucanos.

Vou contar uma história (adaptada) que vi no “The West Wing“:

“Um deputado petista novato, no primeiro mandato, chega todo empolgado na Câmara e pergunta pra um sênior, veterano, com vários mandatos nas costas. E pergunta:

- E ai? Aonde estão nosso inimigos, os tucanos canalhas?

O veterano responde:

- Os tucanos não são nossos inimigos. São nossos adversários.

- Ué? Então quem são os nossos inimigos?

- (Todo) o Congresso.

É claro que essa história vale também pros tucanos.

Na política, as pessoas levam bem a sério a recomendação do Sun-Tzu pra manter seus aliados próximos, mas seus inimigos mais próximos ainda.

PS.: Como o livro já está esgotado, colocaram dois capitulos online: Cap. 8 e o Cap. 11. Dá pra ir degustando.

PPS.: Um blog é pra experimentar coisas novas, seja na forma, seja no conteúdo. Às vezes da certo, às vezes não. Vida que segue.

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Notas Administrativas #02

Voltamos. Finalmente. Depois de apanhar como criança quando apronta alguma, consegui importar e redirecionar o domínio de volta pro WP.com.

O que é engraçado, pois um ex-SysAdmin (que hoje teria outro nome, DevOps) com mais de 10 anos de experiência (apesar de hoje não atuar nessa área mais) e acostumado a migrar servidores AIX com BD Oracle de um dia para o outro com impacto zero para os usuários, o fato de não conseguir mudar o DNS do seu próprio blog e ficar 48hrs fora do ar é de lascar.

Só posso dizer uma coisa: “Oh, the irony!”.

Aldous Huxley vs George Orwell

via
about
Amusing Ourselves to Death“, de Neil Postman
PS.: Não falei que o Blogger é um lixo? Alguém me diz como colocar uma imagem grande, redimensionada, mas que abra no seu tamanho original ao ser clicada, pq eu não achei. Bom, vamos ver se na mão vai…
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Paul Singer :: ‘Banco Público impede submissão da Política ao Poder Econômico’

O Paul Singer “desenha” todo o funcionamento atual do capitalismo, e por consequência, a origem de suas crises (só esqueceu de um detalhe que coloquei em vermelho).

Carta Maior – Economia – ‘Banco público impede submissão da política ao poder econômico’

Economia| 28/11/2011 | Copyleft

‘Banco público impede submissão da política ao poder econômico’

Os países que preservaram instituições estatais conseguiram resistir às pressões neoliberais e priorizar desenvolvimento, geração de emprego e combate à pobreza. A maior parte está na Ásia e América Latina e é menos afetada pelas desregulamentação financeira. Nestes países, entre eles o Brasil, o Poder Político não está submetido ao Poder Econômico. No Primeiro Mundo, os sacrifícios impostos à classe trabalhadora suscitam o surgimento de uma nova esquerda.

Paul Singer

A decisão do [então] primeiro ministro da Grécia de submeter o próximo pacote de “ajuda” da Europa ao seu país a uma consulta popular desencadeou uma queda espetacular das cotações nas bolsas de valores no mundo inteiro, colocando em foco a profunda contradição entre o Poder Político e o Poder Econômico nos países capitalistas democráticos, que hoje são a grande maioria das nações. Uma decisão que deveria ser normal em qualquer democracia – a de consultar o povo, do qual o governo, isto é, o Poder Político, é o representante – acaba de provocar pânico entre os donos do capital financeiro, que hoje detém a hegemonia do poder.

A mesma contradição é a fonte da motivação essencial do movimento hoje mundial dos Indignados, que desde 15 de outubro promove a ocupação das praças centrais dos distritos financeiros de 951 cidades em 82 países. O que os Indignados demandam, acima de tudo, é que a democracia formal, vigente nestes países, se torne real, ou seja, que o Poder Político eleito pelo povo de fato o represente, em vez de executar políticas que beneficiam exclusivamente a classe que exerce o Poder. O que evidencia a contradição de interesses entre a maioria do povo – os 99% que os ocupantes de Wall Street almejam representar – e o 1% que constitui a elite do Poder.

A contradição entre Poder Político e Poder Econômico se explica pela origem de um e outro Poder. Em democracias, o Poder Político é exercido pelos eleitos pela maioria dos cidadãos, que é necessariamente constituída por trabalhadores não proprietários de meios de produção social, boa parte dos quais ganha a vida como assalariados de empresas capitalistas; ao passo que, no capitalismo, o Poder é exercido pelos capitalistas, mas não por todos por igual.

Os empresários da economia real, isto é, cujas empresas produzem bens e serviços que atendem necessidades humanas, dependem de crédito tanto para financiar vendas a prazo quanto para investir em matérias primas, maquinário, instalações etc., na medida em que a demanda por sua produção se expande; o crédito é concedido por bancos, fundos de investimento e outros intermediários financeiros. A renda não gasta pelas famílias, empresas e governos é depositada nestes intermediários, que a redistribuem na forma de empréstimos aos governos, empresas e famílias cujos gastos superam sua renda.

Os bancos, fundos etc., que são empresas capitalistas, visam maximizar seus próprios lucros, emprestando a juros maiores do que pagam aos depositantes e aplicando parte dos depósitos que lhes são confiados em títulos de propriedade de firmas (ações) ou de débito emitidos por governos e empresas. Commodities, ações de novas empresas e cotas de fundos de investimento são transacionados em leilões diários nas bolsas de valores e suas cotações flutuam ao sabor das oscilações de oferta e demanda pelos mesmos.

A maior parte dos participantes nestes leilões são especuladores, que procuram adivinhar em que ativos irão se concentrar as preferências da maioria para adquiri-los antes que se valorizem e quais ativos serão vendidos, para vendê-los antes que se desvalorizem. Obviamente, uma parte dos especuladores faz antecipações erradas e, por isso, perde dinheiro para os seus felizes competidores, cujas apostas anteciparam o futuro corretamente.

Trata-se de um jogo de apostas, mas que afeta o andamento da economia real. Se o otimismo prevalecer nas bolsas de valores, os especuladores comprarão ações e títulos de crédito, cujas cotações subirão, o que permitirá aos empresários obter mais facilmente dinheiro para expandir suas atividades; o crescimento da produção da economia real confirmará as expectativas otimistas dos detentores do dinheiro depositado neles pelos poupadores, levando-os a reiterar as compras de títulos e assim por diante. O resultado será a formação de uma típica bolha de valorização de ativos, cujo efeito será acelerar a expansão das atividades econômicas, até que elas esbarrem em pontos de estrangulamento, que impedirão a continuação do crescimento.

Os pontos de estrangulamento são constituídos por recursos indispensáveis à produção e à distribuição, que exigem tempo para serem multiplicados, como, por exemplo, a produção e distribuição de energia elétrica, os meios de comunicação e de transporte, a mão de obra com escolaridade acima da fundamental etc.. Os pontos de estrangulamento elevam o custo de produção e distribuição de bens e serviços, suscitando círculos viciosos de elevação de preços e salários, que resultam em inflação cada vez maior, contra a qual o Poder Político é forçado a agir, reduzindo a disponibilidade de crédito e o gasto público.

O mero anúncio destas medidas de “austeridade” basta para que as expectativas dos especuladores financeiros se invertam, passando de otimistas a pessimistas, pois eles sabem que elas reduzirão a demanda por títulos nas bolsas, fazendo com que suas cotações desabem (além disso é possível montar operações em que se lucra também na queda dos ativos,  o que acelera e agrava a queda nos mercados).

Inflação e renda
Em suma, o Poder Político é induzido a conter a inflação atendendo ao interesse dos capitais financeiros, que temem a desvalorização da moeda, ocasionada pela subida dos preços. A inflação exige a ampliação da oferta de moeda, que é a “mercadoria” que os intermediários financeiros transacionam. Sua desvalorização prejudica diretamente bancos e fundos, cujos capitais são constituídos, em sua maior parte, por tesouros em forma da moeda corrente do país.

Na verdade, a inflação prejudica também todos que dependem de rendas fixas, entre os quais estão também os trabalhadores informais, que estão excluídos de normas contratuais ou legais que reajustam rendas ou depósitos automaticamente por índices periódicos de inflação. Esta circunstância permite aos porta-vozes dos interesses financeiros proclamarem que é necessário paralisar o crescimento econômico tão logo pressões inflacionárias se fazem sentir, porque a inflação é o mais cruel dos impostos, pois pune os mais pobres. Na realidade, pune os mais pobres e os mais ricos, sendo óbvio que os últimos podem suportar perdas muito melhor que os primeiros.

A experiência histórica do final do século passado mostra que realmente inflação elevada e persistente pode prejudicar seriamente o funcionamento dos mercados e, quando atinge o limite da hiperinflação, tornar impossível o prosseguimento do desenvolvimento econômico; uma vez atingido este estágio, a estabilização dos preços exige o encolhimento da demanda efetiva total por bens e serviços, com efeitos negativos para a economia real, prejudicada pela dificuldade de vender com lucro suas mercadorias.

Como governo algum se arrisca a lançar a economia em hiperinflação, as fases de crescimento rápido são abortadas pelo Poder Político mediante políticas de estabilização que se caracterizam pela elevação das taxas reais de juros, proporcionando grandes lucros aos capitais financeiros.

Isso comprova mais uma vez que, no capitalismo contemporâneo, o Poder Político não pode deixar de praticar políticas, que em nome do interesse geral, de fato priorizam o capital financeiro, reforçando a hegemonia deste sobre o Poder Econômico. Convém observar que, se a intermediação financeira fosse atribuição exclusiva de bancos públicos, a estabilização dos preços em vez de concentrar a renda, como acontece hoje, reforçaria a participação do Poder Político na renda nacional, possibilitando-lhe ampliar políticas redistributivas e deste modo tornar a distribuição da renda mais justa.

Aqui reside o caráter contraditório do relacionamento entre Poder Político e Poder Econômico. Os governos desejam em geral que haja prosperidade; embora esta possa beneficiar todas as classes, o excedente econômico assim gerado sempre é apropriado pelos capitalistas. Os trabalhadores só se beneficiam pelo aumento do emprego, que viabiliza em alguma medida as campanhas sindicais por melhoras salariais. Só que estas somente são obtidas após muita luta contra a resistência patronal, ao passo que a apropriação do excedente pelos donos e administradores dos capitais é imediata: sendo as mercadorias produzidas pelos trabalhadores propriedade dos capitalistas, o lucro a mais decorrente do maior volume de vendas é deles. O que os trabalhadores podem receber a mais será pelas horas extras eventualmente trabalhadas, o que explica a forte concentração da renda que ocorre sempre quando o crescimento econômico perdura.

Para se contrapor à concentração da renda, governos comprometidos com os interesses e aspirações das classes trabalhadoras podem tributar os ganhos extraordinários dos capitalistas e aplicar a receita pública adicional em políticas redistributivas. Políticas como estas, no entanto, provocam a desconfiança dos operadores financeiros, que reduzirão suas aplicações na economia nacional, lançando-a em crise. Sabedores disso, governos de esquerda evitam ferir a confiança do capital financeiro, o que explica sua frequente conversão ao neoliberalismo.

No capitalismo contemporâneo, o Poder Econômico, ao contrário do Poder Político, deixou de ser nacional para se tornar global, sendo dominado por um limitado número de gigantescas transnacionais financeiras. Estes capitais tomam em geral a forma de bancos demasiado grandes para que os governos possam correr o risco de deixá-los quebrar. Eles estão interligados por interesses financeiros, o que lhes permite atropelar o Poder Político de países que não se submetem aos seus desejos.

O Poder Econômico privado conseguiu monopolizar a distribuição do dinheiro internacionalmente aceito, a moeda “forte”, representada principalmente pelo dólar, graças à influência que exerce sobre instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (Bird) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), o que lhe permite impor sua vontade ao Poder Político de nações que não têm o status de superpotências, como está claro no caso da Grécia e de mais uma série de outros países que simplesmente perderam a confiança do Poder Econômico global, de que sejam capazes de honrar suas dívidas externas. Para reconquistar esta confiança, estão sendo obrigados a aplicar políticas econômicas de austeridade que lançam suas economias nacionais em longas e profundas crises.

Bancos públicos
A voga do neoliberalismo que assolou o mundo nos últimos 32 anos fez com que muitos países vendessem seus bancos públicos a capitais privados, o que tornou seus governos inteiramente dependentes dos intermediários financeiros privados. Estes governos, para reter a confiança das finanças capitalistas, foram obrigados a equilibrar seus orçamentos, procurando reduzir seus déficits e conter o crescimento da dívida pública. Além disso, tiveram de priorizar o combate à inflação, reduzindo a despesa pública e o ritmo do crescimento econômico.

O efeito destas políticas foi reduzir a demanda por mão de obra das empresas, ampliando o desemprego, enfraquecendo os sindicatos e suas lutas por melhores salários e condições de trabalho. A contenção da despesa pública debilitou as políticas redistributivas e os sistemas públicos de saúde, educação e previdência, que estão sendo em parte privatizados.

Os países que preservaram seus bancos públicos e os ampliaram de acordo com as necessidades puderam resistir às pressões neoliberais e continuar priorizando o desenvolvimento e o combate à pobreza, ampliando e aperfeiçoando suas políticas sociais e mantendo a expansão do emprego, de modo a evitar o desemprego em massa, sobretudo o de longa duração.

Atualmente, os países que optaram por esta alternativa se encontram em sua maior parte na Ásia e na América Latina e constituem as economias emergentes que mais crescem no mundo e menos são afetadas pelas crises produzidas pela especulação financeira desregulamentada. Nestes países, entre os quais se encontra felizmente o nosso, o Poder Político não está submetido ao Poder Econômico.

Na América do Norte e na Europa o peso do legado neoliberal subordina o Poder Político à ideologia e aos interesses do Poder Econômico. Daí resulta o marasmo econômico, a persistência do desemprego em massa e da pobreza, com o aumento inegável da desigualdade socioeconômica. Nos países do Primeiro Mundo, os sacrifícios impostos à classe trabalhadora e, em especial, à juventude estão suscitando o surgimento de uma nova esquerda, que diferentemente da velha esquerda não pauta a conquista do poder como ponto de partida para a reversão de uma situação insuportável.

A rebelião dos Indignados tem por alvo a restauração da autenticidade democrática por meio da indispensável subordinação dos interesses da minoria privilegiada à vontade da maioria. Para tanto, ela terá de revelar os liames políticos e econômicos que amarram os representantes eleitos ao Poder Econômico, que retira sua força de uma globalização dominada pelo capital financeiro e que impede que o Poder Político, limitado ao âmbito nacional, possa cumprir suas plataformas eleitorais.

Obviamente, para restaurar a autenticidade democrática e a supremacia do Poder Político, será necessário desenvolver, ao lado do capitalismo, uma economia em que o capital seja propriedade coletiva dos trabalhadores que o utilizam, como sempre foi em toda longa história da humanidade que precedeu a Revolução Industrial. Esta “outra economia” já está sendo desenvolvida em numerosos países e terá como resultado a diversificação do Poder Econômico, tornando-o em boa parte afinado com as necessidades e desejos dos que hoje são explorados e alienados.

*Paul Singer é secretário nacional de Economia Solidária do ministério do Trabalho.