Miles Davis – Blue in Green

Miles Davis e a minha preferida do excepcional, fantástico indescritível, Kind of Blue.

Feliz Natal.

Procrastinação

 

At the End of a Procrastinated Day

Procrastination is the worst feeling ever. Sitting here, staring at my screen. Watching net videos, a full two-hours stupid documentation and not enjoying one second. Then, surfing the web once more. Refreshing Hacker News and my four favorite news sites in rotation, every minute—all the goddamn day. And my work is just one Command-Tab away. Even my new 3.99-Pomodoro-app (ps.: ou tomighty for linux-free) won’t bring me back to work.

Getting me some water from the kitchen. After all, some movement away from Chrome and thousands of open tabs. Eating a banana and listening to music which I just bought somewhere in the net.

I’ve still no clue why humans procastrinate. It feels so bad and I know I’d feel better if I was working again.

But I won’t.

Ao fim de um dia de procrastinação

Procrastinação é o pior sentimento de todos. Sentado aqui, olhando para meu monitor. Assistindo vídeos na net, duas horas de estúpida documentação e não gostando nem um segundo. Então, surfando na web mais uma vez. Atualizando o Hacker News e meus quatro sites de noticia favoritos alternadamente, a cada minuto – durante todo o maldito dia. E meu trabalho está a somente a um comando-aba de distância. Mesmo meu novo aplicativo de gerenciamento de tempo de US$ 3,99 não é capaz de me trazer de volta ao trabalho.

Pegando um pouco de água na cozinha. Afinal, algum distanciamento do Chrome e suas milhares de abas abertas. Comendo uma banana e  ouvindo música  que eu acabei de comprar em algum lugar na net.

Eu não tenho a menor ideia por que os humanos procrastinam. Isso me faz sentir tão mal e sei que eu me sentiria melhor se eu estivesse trabalhando novamente.

Mas eu não vou.

Procrastinação é mais uma dessas heranças primitivas. Ela nos faz valorizar mais o que traz retorno imediato ante o retorno a longo prazo, mesmo que dê um retorno maior. Ela desafia a razão, nos confunde e atrapalha nosso planos. Ela é movida pelo impulso.

É por isso que compramos um carro financiado pra poder parar de pegar ônibus hoje ao invés de poupar pra comprar a vista dois carros daqui a dois anos. É por isso que comemos doces/gordura hoje e deixamos a dieta pra amanhã. É por isso que saímos pra beber cerveja/fumar cigarro hoje e deixamos de ir pra academia amanhã. É por isso que deixamos a monografia/dissertação/tese pra semana final de entrega.

A ciência já sabe. A economia comportamental (behavioral economics) já sabe. E com isso os publicitários já sabem. É por isso que os chocolates e salgadinhos ficam na boca do caixa. É por isso que vocês não saem do Twitter. É por isso que seu Facebook fica aberto o dia inteiro.

É, de certa forma, natural. Mas nos torturamos com isso, pois essa luta é muito recente. Pra agravar o problema é que vivemos na “Era da Distração“. Vivemos na “Era do Tempo Real. Tudo é imediato. Somos bombardeados por estímulos por todos os lados. Assim não focamos em mais nada.

Eu acho que “encontrei jesuis, encontrei jesuis”. Depois de muito esforço, voltei a focar. Estou eliminado atividades que me distraem ou considero excessivas. Delegando. Ontem tive uma recaída, mas acredito que é normal. É como parar de fumar (ver post em breve). Só funciona depois da terceira tentativa.

Mas se você olhar suas intermináveis lista de to-do (a fazer), seus livros (e-books) a serem lidos, os filmes não finalizados no Netflix, etc., perceberá que é um longo caminho. Uma batalha sem fim.

E sem garantia alguma de vitória. Mas como humanos que somos, continuamos lutando.

PS.: Nos comentários no post acima tem várias referências complementares.

Joshua Topolsky – “It’s all about the software”

-
Eu não sei como dizer isso pra vocês, mas eu juro que eu não tinha terminado de ler esse texto antes de escrever “É o software, estúpido“.

Tinha visto que o Topolsky (ex-Engadget e agora no totalmente excelente The Verge) tinha começado a escrever pro WSJ e guardei o texto pra ler só agora.

Não tenho explicação pra essas coisas, mas ele termina com o que eu comecei: “It’s the software, stupid!“.

Sincronicidade, diria Carl Gustav Jung.

The secret behind the Apple iPad 2’s success – The Washington Post

The secret behind the Apple iPad 2 and other popular gadgets: It’s all about the software
By Joshua Topolsky, Published: December 14

Recently, I got into a little argument on Twitter with some folks in the technology industry about hardware. More specifically, about whether impressive hardware specifications really matter in the age of the app.

I believe that hardware specs — speed, memory, screen size — do make a difference, but that difference can take you only so far.

Although CPU speed and RAM might dictate what’s possible to do with a gadget, developers and designers now have to actually deliver on those promises. Take, for example, the disparity between the iPad 2, which has a 1-GHz CPU, and most new Android tablets, which run far faster than that.

Would anyone who has used both devices argue that the experience of the Android tablet is superior to that of the iPad 2? Doubtful.

The more I thought about this question of hardware vs. software, the more intrigued I became about the future of our technology and how it will develop in the next five or 10 years.

Since the personal computer was invented, we’ve been in a kind of space race when it comes to the speed, storage and memory of machines. Sure, software has always been a component of selling these systems, but when it comes to proving your value, it was all about specs.

But something odd has happened in the past few years. As we’ve started to interact more closely with our technology, and our technology has become more personal, the focus has turned almost completely to the software — to apps and the experience.

The more we touch, shake and swipe our devices — and the more we think of those devices as intimate parts of our daily lives — the more the hardware has faded into the background.

Think about it — most phones these days are nothing more than a touch screen. Almost every interaction with the device is carried out directly with the software.

As the importance and relevance of great applications grows for our devices, the divide between the great experiences and the ones that leave you wanting is becoming clearer with each passing day.

You could almost argue that there’s a kind of fundamental split between the platforms that have been tailored to provide a consistent, elegant experience and those that have been left more open.

You can hedge your bets with a faster processor and larger screen all you want, but if the foundation for a great software experience doesn’t exist for users and developers, it’s likely that users will take their business elsewhere.

I recently took a trip to Microsoft to see research projects the company is working on. Some of those science experiments involved entire walls that were touch screens, “magic windows” that would let you peer into someone else’s house or office, and augmented reality systems that let you interact with seemingly real-world objects that you could view through only a tablet screen.

What struck me most about the experience of seeing these projects was that, although I was immersed in the action of using them, I never took a moment to think about the hardware.

What mattered standing in front of that touch-screen wall or playing that augmented-reality game was the pure experience. It was an extension of what I feel today when I dictate an e-mail into my smartphone, use a 3-D map of my surroundings to navigate somewhere, or take a photo and then have it magically appear in the cloud.

In the best cases — the best moments — with technology, the software experience allows us to extend and expand what we’re capable of doing.

In 10 years, it’s possible that the software and the experience will blur even further with what we do and how we do it — leading to a pure experience the likes of which we haven’t seen before.

When our entire environment can be interacted with, you won’t be thinking about the CPU speed, memory or screen size of a product.

You’ll just be thinking about how to get things done and move through the world.

The more advanced our products get, the more subtle and sophisticated our software has to be. Today, we’re just starting out with touch screens and voice recognition. Tomorrow, everything we touch might be an experience waiting to happen.

Let’s hope that the computer-makers that are touting specs today learn this lesson for the future: It’s the software, stupid.

Joshua Topolsky is founding editor in chief of the Verge (www.theverge.com), a technology news Web site that debuted this fall, and the former editor in chief of Engadget. He is the resident tech expert for NBC’s “Late Night With Jimmy Fallon.”

© The Washington Post Company

SOPA – A Lei da Censura da Internet

sopa_infographic

É preciso que nos preparemos para a grande batalha que acontecerá nos próximos anos: a censura a internet. A tentativa de bloqueio no coração dela (o DNS).

De certa forma passamos a acreditar que isso não seria possível. Mas os lobistas da RIAA e da MPAA não se cansam, e ao invés de reformar seus modelos de negócios bilionários, preferem passar leis de censura e monitoramento.

Mas duvido que essa lei seja só promovida por essas entidades, muitos governos e governantes gostariam de ter de volta esse poder.

De volta, pois pela primeira vez, desde a invenção da democracia, ela está prestes a se tornar realmente plena. A dar voz e a equiparar a voz do indivíduo com a da grande corporação. Da grande celebridade com o anônimo. Dos governantes com os seus cidadãos e eleitores.

Eles não vão desistir assim fácil. Aqui no Brasil ainda estamos lutando contra o “AI-5 Digital“, e não podemos descuidar nem um segundo.

E lá fora, a batalha contra a “SOPA” está crescendo. Nessa semana saiu a lista das empresas que a apoiam e começaram a surgir algumas reações.

Precisamos nos informar e mobilizar contra essa tentativa de controle da internet, por que, a partir de agora, ela será permanente.

É o software, estúpido!

Meses atrás o Marc Andressen entre outras coisas, co-fundador da Netscape e hoje com o Brad Horowitz, investidor em inúmeras startups escreveu no WSJ (ver abaixo) sobre como o software está engolindo o mundo.

Ele não é o primeiro, e nem vai ser o último a dissertar sobre isso. Confesso que nós, técnicos, temos um sério problema de comunicação com as outras pessoas “normais”. Às vezes, ignoramos que o que é óbvio para nós às vezes não o é para os outros.

Vejam as últimas decisões do Governo. Uma série de medidas a fim de “proteger a industria nacional”. Por outro lado, tenta inutilmente trazer para o Brasil certas “industrias”. O exemplo mais patético são os consoles de videogames. Passamos anos clamando por isso, e só agora, quando a 7ª geração de consoles (Wii, PS3 e XBox360) chega, melancolicamente, ao fim é que pessoas no governo começam a discutir políticas específicas para esse setor.

Não dá mais! Já era! Acabou. A própria industria de games está sendo solapada pela revolução mobile. Há dúvidas se teremos uma 8ª geração de consoles. Com o aumento da capacidade de processamento e os avanços na nanotecnologia um smartphone ou tablet é – ou bem em breve será – capaz de ser a plataforma ideal para jogos eletrônicos.

A solução óbvia, natural, para o problema é estimular a produção dos jogos. O software, não o hardware. Mas não, todas as políticas seguem aquilo que considero a “maldição cepalina“. Burocratas por todo o governo e universidades, acreditam piamente que seremos capazes de promover uma “substituição de importações” plena, em todos os setores. E como isso recursos já escassos para setores que simplesmente não importam mais.

Vejamos as últimas decisões para o setor automobilístico. Não estou aqui, querendo que o deixem nossas montadoras, construídas à base de pesados subsídios, sob o ataque das agressivas montadoras asiáticas. Só gostaria que houvesse o mínimo de contrapartida delas, aceitando investir uma pequena parte em design e em carros e motos elétricas.

Um exemplo de uma boa política foi a construída a fim de atrair a produção de tablets, o chamado Processo Produtivo Básico (PPB). Mas só pode funcionar por que é um mercado recente. Mas mais importante que isso, é financiar a produção de conteúdo, software para tais plataformas. O software é a forma de revolucionar a indústria brasileira.

A Apple apesar das aparências, não revolucionou com o hardware dos seus produtos, revolucionou com inovação, com o design, com o software, com o conteúdo. O hardware só acompanhou um conceito mais profundo. A ideia física de tablet e smartphones já existia há anos. Veja aonde a Nokia, que produziu um dos smartphones com o hardware mais robusto da história (N95), está hoje. A obsolescência não perdoa ninguém.

O Android não está se consolidando como futura plataforma dominante por causa da qualidade do hardware que os fabricantes criam pra ele, e sim, pela consistência do ecossistema criou. Pela inovação constante que as só as plataformas abertas permitem. Pela agilidade e rápidas iterações para agregar funcionalidades.

É preciso convencer os governantes que fechar nossa economia ainda mais não vai ajudar em nada o nosso desenvolvimento. Um jovem designer ou empreendedor que precise de uma impressora 3D pra fazer a prototipação de um produto inovador a baixo custo, gastaria quanto, e principalmente, perderia quanto tempo pra fazer a importação? E os intermediários? E a burocracia? E a incerteza jurídica?

O Governo ainda acredita que a inovação acontece numa universidade ou instituto, quando na verdade ela está na cabeça dos jovens. Os mesmos jovens que abandonam uma Universidade ultrapassada, cheia de velhos, com regras draconianas, com professores que mais parecem ditadores. Foram jovens que largaram os “estudos” que criaram a Apple, o Google, a Microsoft e o Facebook numa garagem

As maiores companhias do mundo em breve serão as produtoras de software. Do mesmo tamanho só alguns dinossauros que ainda se alimentam da nossa estúpida dependência de combustíveis fósseis. Mas não podemos apostar nosso futuro e o dos nossos filhos numa industria que tem data de vencimento, ou na produção de bens primários sem a agregação de valor e tecnologia.

Esse deveria ser o foco do debate político hoje. É por isso que os jovens estudantes, técnicos e cientistas deveriam se mobilizar. Uma economia mais aberta, e não o contrário. E foco (não só verbas) na inovação, ciência e tecnologia.

Why Software Is Eating The World

Continue lendo

Memórias de um ex-dependente da nicotina

Inacreditável. Eu fumava Lucky Strike, Malboro. Só faltou o Camel, pra me sentir mais estúpido.

As memórias surgem como fotografias, aceleram, viram filmes, mas em câmera lenta. Depois chegam as sensações, o frio na pele, os odores da manhã, a luminosidade daquele dia nublado. Finalmente chego no fundo do baú das memórias, guardadas num canto escuro do meu cérebro, a decepção e vergonha consigo mesmo, tudo catalisado para criar suporte à tomada de atitude.

Bem, resumidamente, foi assim que parei de fumar:

Anápolis, 20 de Janeiro de 2000

Venta frio, um frio cortante, causando um zunido estranho. Prelúdio de chuva. Essa cidade, entre Goiânia e Brasília, mais parece um iceberg encalhado no meio do Planalto Central. Sempre chove, sempre faz frio. Manchester no calor seco do centro do Brasil? Sempre chove em Anápolis.

E eu de sunga. Ao lado, meu futuro professor de natação e amigo. Ele, debaixo de um amplo guarda-sol – que, oh, ironia!, tinha patrocínio de uma marca de cerveja de logo amarelo. Ele quer testar minha capacidade respiratória. Ex-jogador do time de basquete da escola, ex-ciclista nas hora vagas. Sempre, sempre praticando algum esporte. Não naquela época, não depois dos excessos da juventude.

Mergulho numa piscina semi-olímpica de temperatura quase-polar. Não chego nem ao meio dela. Depois de tirar a cabeça da água, me senti estúpido, me senti fraco, me senti mais velho do que minha carteira de identidade afirmava, me senti dominado por uma maldita droga sabidamente cancerígena.

Sejamos sinceros, quem além do próprio Mefisto teria colocado no mundo, folhas de tabaco trituradas e misturadas com outras substâncias (para potencializar o vício), e depois enroladas num papel. Acende-se de um lado, suga-se a fumaça do outro, para depois exala-lá achando tudo isso glamouroso, cult, tão stylish como do James Dean em “Rebel Without a Cause“, como Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany’s.

Sou velho, ok. Bom, mas se for de outra época, não se preocupe, existem outras referências sempre a mão. A indústria é extremamente profissional quanto a isso.

Cult, Rebelde - se você for homem

Só mesmo a infindável estupidez humana pra criar o hábito de jorrar fumaça numa obra prima da engenharia evolutiva que chamamos de pulmão. Ela entra, mas não sai antes de deixar pelo caminho todas as suas toxinas e sujeiras. Não antes de jogar na corrente sanguínea doses de nicotina que 8 segundos depois já estão no cérebro mostrando seu poder.

A nicotina é tão viciante quanto cocaína e a heroína. Ela é a chave idêntica pra um outro neurotransmissor (acetilcolina) envolvido em muitas outras funções do corpo. Pra mim, servia pra ativar a memória e reduzir a ansiedade, principalmente. Era por isso que fumava. Além de ser o complemento perfeito pra uma cerveja ou um café. Além de óbvio achar aquilo “bonito”.

Stylish - se você for mulher

Naquele dia frio, depois de 3 ou 4 tentativas anteriores (ninguém consegue se livrar da nicotina de 1ª), sendo a maior com 1 ano e 8 meses, decidi que não fumaria mais; tomaria água; mascaria um chiclete; usaria adesivos; daria um chute na quina da porta. Mas não fumaria mais.

Aliás, percebam que a nicotina pode ser absorvida por várias formas: narinas, língua, pele, enfim qualquer forma. Então é fato que fumantes passivos fumam quase o mesmo que os fumantes ativos.

Muitos amigos meus ainda fumam. E eu custo a acreditar nisso. Em pleno séc. 21, gente que fuma. Gente que defende o “direito” de fumar. Sabidamente alimentam uma das doenças mais destruidoras que já surgiu na nossa breve existência.

O câncer destrói não só quem o tem, ele é devastador principalmente pra quem está em volta. Pais, filhos, companheiros, etc. E a conta no final é de todos.

Nadar foi meu refúgio. O mesmo refúgio que achava ter encontrado no cigarro pra reduzir a ansiedade. Perdi momentos únicos da minha vida permitindo que meu cérebro fosse enganado por uma falsária que levava a chave, mas deixava um rastro de sujeira permanente no meu corpo.

A ansiedade e o estresse fazem parte da vida. Só os covardes fogem dela. Só os estúpidos ainda inalam uma fumaça assassina pra dentro máquina quase-perfeita que é o corpo humano. Antes não conhecíamos mecanismo, o funcionamento. E com isso não havia a tecnologia, as ferramentas.

Estúpido, eu fui. Covarde, não depois daquele dia. É uma pena que ainda exista uma multidão ai fora. Usando  falácias, pra tentar argumentar, pra justificar o injustificável. Hoje só falta a atitude, o querer.

Só falta o mergulho numa piscina gelada num dia frio. O que não é muito.

Quando a primavera chegar

Uprising

Por toda mídia eles noticiam como se só houvessem revoltas e uprisings em países contrários ao “ocidente”. É a civilidade do ocidente chegando ao oriente médio, propagam em decadentes telejornais, revistas e jornais. Atrasados e obsoletos, são vítimas da inescapável revolução tecnológica. Mas não perderam a certeza. Décadence sans élégance.

Os velhos sabem exatamente o que se passa na cabeça dos jovens que clamam por um direito básico: liberdade. Sempre sabem. O velho jornalista, pseudo-intelectual, exibe um sorriso mórbido no telejornal noturno. Parece um vampiro a me assombrar no fim da noite. Quem colocou nesse canal? Não tenho medo de praticamente nada, nem da morte, mas temo profundamente aquele sorriso dissimulado. Ele exibe satisfação – ao seu modo, claro – ao noticiar a primavera árabe, sem contudo, se envergonhar com a diferença de tratamento das mobilizações contra banqueiros e financista nos EUA, ou a revolta crescente na Eurozona contra os pacotes que seguem a velha regra de mais austeridade pra pagar financistas gananciosos. É pela “estabilidade do sistema”, repetem por toda parte como se fizesse sentido.

Economistas do mundo todo procuram explicação. Não percebem o que eles consideram “ciência” ter se tornado um poço de areia movediça. Quanto mais se debate pra tentar fugir das teorias que afundam, mas se enrolam. Grandes gestores de hegde funds ligam apavorados para suas esposas-troféu pra pedir que saquem dinheiro e guardem no colchão. Tanto quanto puderem sacar. O sistema monetário já não é tão “estável” quanto a teoria “demonstrava”. “As linhas de crédito “travaram”, não sabemos aonde vamos parar”. O colapso talvez.

Esquerdistas nostálgicos – como viúvas de um canalha, mas bom de cama – permanecem parados no tempo, acreditam nos sinais da revolução. No “fim do capitalismo”, pela milésima vez. “A luta continua companheiro, a hora é agora”. Não percebem que o capitalismo se destrói e reconstrói diariamente. Estão cegos e ocupados demais. O twitter nos guiará rumo a um novo “sistema”. “No final do ano vou juntar todos os meus twits e fazer um tese, sonha o acadêmico decadente”.

Ditadores morrem ou são mortos em cada canto escuro do mundo. Em cada gruta fria, terroristas são mortos por bombas teleguiadas ou esquadrões delta, treinados como cães de briga. Uma forma especial de lobotomia. Pra quê um soldado robô?, se hoje com a química certa, com a tecnologia certa, podemos ter o cyborg perfeito. Geneticamente criado, psicologicamente treinado. “Um dia todo exército será assim, é só terminar essa fase de testes, promete”. “Não Sr. Presidente, não teremos mais Bradley Manning‘s a nos atormentar”. É só uma questão de tempo.

Políticos por todo o mundo são alçados ao poder, e antes mesmo de começar a fazer aquilo que almejavam, aquilo pelo qual foram eleitos, são sacados do trono por uma mão invisível. Se ainda no poder, são sustentados pelo lobby que antes prometiam combater. Só não se sabe por quanto tempo. Ou foram picados pelo veneno da mosca-azul, ou ficaram enebriados pela brancura dos mármores palacianos. Ou, em alguns casos, na ausência de uma estagiária voluptuosa, foram seduzidos pelo jovem ajudante d’ordens que habilmente abre e fecha as portas. “Nunca mais tocar numa maçaneta, sonhava o hoje o ex-presidente”.

Adultos, mas infantilizados depois de anos da combinação perfeita tv+internet, por todo o mundo repentinamente se indignam com os abusos dos políticos, refletem sobre o que se passa no seu país, e se articulam. E num súbito arroubo de fúria, proclamam:

- Amor, hoje vou fazer um post no <twitter/facebook/blog/etc.> sobre <política/meio-ambiente/economia/ geopolítica/etc.>. Cansei da velha alienação.

Tremei, a revolução está entre nós.

-

O Predador

Vamos supor, hipoteticamente, que amanhã quando acordássemos não estivéssemos mais no topo da cadeia alimentar. Que um ser alienígena, ou uma mutação em um dos seres abaixo de nós, os colocasse repentinamente acima. Pra começo de conversa, e ignorando diversas outras consequências, aonde esse ser iria nos caçar?

Na porta de um fast-food? Acredito que não. Aquilo que esses estabelecimentos produzem está longe de ser chamado de alimento. Algo totalmente industrializado – e quem já viu uma industria de alimentos por dentro sabe do que estou falando – só para atender a ansiedade da vida moderna. Aquela coisa que servem lá “sobrevive” por dias, meses e nem bactérias e fungos são capazes de decompô-las. Acredito que o plástico se decompõe mais rápido.

Outra opção seria na porta de uma churrascaria. Somos carnívoros, e usamos essa desculpa esfarrapada para nos entupirmos de carne gordurosa e impregnada de sal a fim de saciar uma herança primitiva. Teoricamente, ingerimos muito mais proteínas que o necessário. Mas essa demanda por carne, além de devastar florestas virgens para abrir espaço para pasto (bem, pelo menos não alimentamos o nosso gado com restos de outras culturas o que como se sabe tem consequências trágicas), nos obriga a acelerar o crescimento das vacas, porcos e galinhas com hormônios. Afinal todo fim de semana tem que ter churrasco e cerveja, certo?

Então seria na porta de um bar? Acredito que se alimentar de humanos onde os órgãos cuja função seria filtrar e eliminar as toxinas do nosso organismo – como o fígado e os rins – passaram a funcionar precariamente devido a falta de limites, não seria uma escolha muito inteligente.

Ou na porta de uma doceria, panificadora ou pizzaria? Bom, basta observar por alguns minutos o formato do corpo dos espécimes que entram e saem mais frequentemente desses ambientes pra pensar duas vezes e descartar essa hipótese. Além do quê, nunca poderíamos ignorar o prazer da caçada. Caçar um gordinho desesperado rolando pela ladeira – sem contudo, largar a rosquinha recheada – não teria graça alguma.

Veganistas e similares poderiam ser a melhor opção. Mas é conhecido o radicalismo do ser humano quando se tem que fazer escolhas difíceis. Nunca optamos pela sabedoria do equilíbrio, sempre é tudo ou nada. Assim creio que vegetarianos e vegans não seriam uma boa fonte de nutrientes para eles. Também temos que considerar a escala, já que os que não comem carne são a minoria da minoria da população, e não seriam suficientes para alimentar toda uma nova espécie.

Se esses seres, inseridos no “nosso” ecossistema, fossem mesmo uma espécie mais evoluída que nós – o que, definitivamente, não seria difícil, muito pelo contrário – eles optariam por uma outra fonte de nutrientes que não nós. Sei lá, uma zebra, um gnu. E talvez nos caçariam por pura diversão. Afinal, se tem algo que aprenderíamos rapidamente seria fugir como gazelas no meio Serengeti quando o guepardo chegar pro almoço.

Mas isso tudo, só nos levar a refletir sobre nossos (patéticos) hábitos. Somos o que comemos. Então se tivéssemos o mínimo de discernimento e olhássemos para nossa dieta com os olhos de uma espécie mais evoluída, veríamos quanto lixo ingerimos diariamente. Aliás praticamente tudo que comemos e bebemos é nocivo. O que no nosso estágio evolutivo é incoerente, principalmente se compararmos com os avanços na tecnologia e genética, por exemplo.

Mas talvez essa seja a razão, a maneira como avançamos nessas áreas passou a ilusão de que sempre desenvolveremos uma solução, medicamento ou cirurgia pra compensar nossos péssimos hábitos. Enfim, que teríamos a vida eterna a um preço razoável.

Bem, pelo menos até que a dona evolução nós mostrar quem é que manda no pedaço.

Ainda sobre o Pará

Eu pretendia escrever sobre isso antes do resultado. Não deu. De qualquer forma pra mim não foi uma surpresa a derrota da divisão, mas o tamanho da diferença foi (66% a 25%). Eu tenho familiares que migraram para essa região e já ouvi muitas histórias a respeito dos problemas. Inúmeros.

Como economista via que a maioria se deve à ausência do Estado. Ou omissão. Acredito que um estado dessa dimensão é praticamente ingovernável da maneira atual. No fim era “levemente” a favor devido à experiência da divisão Goiás-Tocatins. Como goiano, é nítido, não o que representou para Goiás (acredito que para nós foi indiferente do ponto de vista econômico), mas como os tocantinenses ganharam. Isso é indiscutível. Além disso Tocantins optou por um modelo de desenvolvimento mais baseado na iniciativa privada. E isso é (pode ser) bom no longo prazo.

Ainda que falho em vários pontos, acredito ser  o melhor modelo de desenvolvimento para estados com um déficit muito grande no desenvolvimento econômico e social. Um estado forte e indutor que estimule a iniciativa privada. E um novo modelo administrativo, bem mais descentralizado. Às vezes quando se tem pouco é melhor recomeçar e partir do zero. Esses estados podem ser o exemplo de um novo modelo de gestão pública.

Além disso, há que se notar que a divisão Goiás-Tocantins foi realizada numa época de forte contingenciamento financeiro por parte da União e Estado. Assim o governo não investiu o necessário para elevar o desenvolvimento do novo estado. Hoje essa situação é um pouco diferente. Outro aspecto é que, hoje, quando visito a região norte de Goiás eu vejo como não criamos um modelo de investimento para reduzir o atraso dessa região que ficou com a gente. Fico imaginando como seria se não tivéssemos criado Tocantins.

Agora justificar a não divisão do Pará “por que criaria mais políticos” é miopia e ignorância. É visão de pseudo-democratas que não querem pagar o preço pela democracia.

De qualquer forma (ainda) acredito na democracia. Os paraenses tiveram seu momento de escolha e tomaram a sua decisão. Agora vão ter que elaborar um novo modelo de gestão, pois o atual está falido. É impossível administrar um estado dessa dimensão com essa visão centralizadora.

PS.: E eu gosto do Calypso. E pra quem não sabe o Tecnobrega está desenvolvendo um modelo que pode salvar a falida industria audiovisual tradicionalmente avessa à inevitável tendência de colaboração e inovação aberta (ver “O Pará reinventando o negócio da música” e  “Tacky and Proud: Exploring Tecnobrega’s Value Network“). Mas o preconceito só existe “nos outros”, não é mesmo?

.

A Privataria Tucana

Ao contrário do que muitos pensam, eu estou interessado no livro não para descobrir algo de novo sobre os tucanos (afinal, depois da Satiagraha, já sabemos e temos as provas do quanto esse processo foi sujo), e sim ligar os pontos sobre a luta interna dos petistas e tucanos.

Vou contar uma história (adaptada) que vi no “The West Wing“:

“Um deputado petista novato, no primeiro mandato, chega todo empolgado na Câmara e pergunta pra um sênior, veterano, com vários mandatos nas costas. E pergunta:

- E ai? Aonde estão nosso inimigos, os tucanos canalhas?

O veterano responde:

- Os tucanos não são nossos inimigos. São nossos adversários.

- Ué? Então quem são os nossos inimigos?

- (Todo) o Congresso.

É claro que essa história vale também pros tucanos.

Na política, as pessoas levam bem a sério a recomendação do Sun-Tzu pra manter seus aliados próximos, mas seus inimigos mais próximos ainda.

PS.: Como o livro já está esgotado, colocaram dois capitulos online: Cap. 8 e o Cap. 11. Dá pra ir degustando.

PPS.: Um blog é pra experimentar coisas novas, seja na forma, seja no conteúdo. Às vezes da certo, às vezes não. Vida que segue.

-